autorretrato, por Isadora Lobo, 2017

Era uma aula de dança. Me fizeram ficar em pé por um tempo, só isso, e eu lá, até que me perguntaram

-Você está com medo de cair?

-Claro que não. Que besteira…

E fiquei rindo

Que besteira falar dessas coisas. Que bobeira ir na aula de dança a pesquisar as sensações. Com o mundo lenta e após dia sendo exterminado

Medo de cair?

É outra coisa o que sinto: um mal estar, um tremor nos olhos, um nó-bolo de raiva na garganta a querer sair de mim mas não há tempo, então engulo e saio correndo. Não há tempo para sensações não listadas e não automaticamente medicáveis.

Medo de cair? Me poupe

Nossa terra vem sendo governada por homens estúpidos.

Não há tempo de habitar as imagens, imagens de sonhos quando se acorda, tampouco as pausas, não há tempo de decentemente fumar um baseado, como quando em sabe-se lá quantos anos atrás, lá se ruminava mais as horas, não há tempo de sentir o vento a fazer cócegas na pele, hoje é preciso já se pôr em marcha e agora a raiva maior do mundo é das pessoas nas esquerdas das escadas, um absurdo… hora de chegar no serviço e elas paradas nas escadas.

Tempo é dinheiro e o vazio: angústia sincera nas horas de se estar envelhecendo, ao se olhar os dias a passar tão rápido. Tenho muitos mais anos do que antes tinha e talvez já não haja tempo para tantos sonhos. Me desespero: talvez um dia eu morra mesmo e de verdade. E então a vertigem. Há como adiar, e percebo: talvez seja a lactose, umas pontadas. Não há tempo de esperar os médicos.

Nessa terra, é preciso trabalhar até morrer.

Porque o tempo, é do tempo que estamos falando a todo tempo, tão horas cansadas, de trabalho sem sentido, cabeça cheia e o vazio, ônibus-cheios e metrô e todo dia, engolir comidas, ver as notícias, ver as notícias e remédios. Pra ver se dorme. Será que devo? Perco horas dormindo, e que não voltam. Relógios e trabalho.

Nas esquinas das padarias pomposas com seus carros… os colonizadores, sim, esses branquelos a projetar as pelves, cortes de cabelos insossos… esses homens com suas mãos gordas apertando os botões de controle dos carros, da televisão, da entrada de estacionamento do shopping. Feito garotos mimados cujas mãos cresceram mas não os cérebros. E que sobretudo falam em ordem… ordem e progresso, ordem e família tradicional…quer saber? Estou cansada.

Homens estúpidos a me pestear nas ruas, com os olhos sugam minha pele, e me envelhecem desde o cenho. Mas depois de franzidos cenhos já não me querem. Depois de marcas e sinais do tempo vão metendo o pé, ou se dividindo em duplas vidas. Mulheres não, por gentileza. Com essas não podem tudo mas meninas? Se excedem nas meninas, sanguessugas, não me enganam: são os mesmos que habitam as bancadas.

Quando perto de mim, esses homens, quase corro: não os quero a me rondar feito lobos da pior espécie. Esses que passam álcool gel nas mãos ao sair dos trambiques.

Penso que se eu cair, me devoram

(…)

Será que me devoram?

Não sei. Nessa terra dominada por estúpidos todo cuidado é pouco. Nervosia latente a toda e qualquer hora, e um andar além da perna: estômago-faringe que se projeta acima-frente, sustentada pelos nós de meu corpo. É que me tiraram os ossos! O descanso do esqueleto, me tiraram. Sou pura irritação nervosa.

Nem ao ver as notícias a noite no sofá me permitem entregar às almofadas como antes. Me sustento pelos olhos, a desacreditar. E me comprimem os ouvidos suas vozes arrogantes. Só pode ser brincadeira. Olho aos redores ao entrever as pegadinhas, as câmeras. Me belisco a acordar do pesadelo. Mas é real.

Por isso não invento mais chamas em poesias: falo do fogo de verdade, do fogo que queima agora e tem lugar. Homens estúpidos queimam a Amazônia, a impressionar outros homens estúpidos e assim caminham os dias. Conseguiram secar a própria água. Em São Paulo fez-se noite em plena tarde: nem o dia nos é mais garantido. O tempo se perdeu na estupidez.

Pessoas a andar nas ruas: pessoas a andar nas ruas e duras: feito tábuas. Tábuas com rostos a andar nas ruas, a pura ansiedade de ser visto-vista por abutres, então tenta-se resolver num rápido caminhar e olhos freneticamente escusos, baixos-ventres em asfixia, colunas lombares e pinçadas posteriores que é quando se lembra que há costas: caminha-se por entre labirínticas linhas tortas e ademais sem chão, tropeça-se e então se olha pros lados para ver quem viu. Lança-se pra frente pendurada nas gargantas: estômagos. Gastrites que não se entendem, terapias a desentender os corpos, ruminar os passados em busca de choros que pioram, nos afundam em nossas lamas e ao andar nós-pendurados, titereados por tensões de toda uma vida a se encurtar e ainda mais agora: uma vida a se encurtar pra não ser curta: é preciso minimizar os riscos.

Medicina preventiva é o medo. Lá estão eles a destruir nossas conquistas. Infectar as esperanças.

Tensão constante enraizada em minha pelve, entalo a mim mesma no meu próprio esconderijo anti-abutres, meu corpo, será? Nessa bacia minha, que justo era pra desembocar, desaguar as águas de dentro, mas que águas? Não há águas em mim mas cinzas. Se a grande floresta seca como não eu? Terminantemente não sinto nada. Ando nas ruas a me esquivar dos esguichos de água suja sobre as quais deslizam os pneus dos carros dos estúpidos, que passam velozes, seus carros que passam com raiva de tudo que não seja eles, abutres violentos e com raiva, que quase nos atropelam no sinal vermelho. Mas nós, que precisamos seguir caminhando: de qualquer jeito e assim mesmo, nossos peitos histéricos-inflados e o cóccix: essa quase cauda a apontar pro Céu. Sacro-cóccix: e desde ele um fio a me puxar a nuca para de baixo, uma trava na garganta e nos maxilares, por Deus! Não há costas. Me exterminaram a espinha! Basta andar a estar cansado. Ficar em pé no metrô é difícil sozinho, melhor as seis da tarde que é quando não se cai.

Mas a gravidade continua a nos puxar pra baixo. Você sente? Sente a gravidade quando anda ou apenas a presença sorrateira dos abutres?

Se busca ainda sentir algo, um calor de gente, uma água a desafogar os corpos, venho coletando algumas ideias, desde respiros nos confins da Terra. Desde ínfimas delicadezas, nas quais ninguém aposta porque pequenas. Esqueço os abutres por uns instantes. Suavizo os joelhos e me deixo cair em meio ao caos.

(…)

Conforme em queda livre é que percebo, não sem pingos de alívio salgados a desaguar na boca: aqui não há perigo. Conforme suavizo os joelhos e respiro é que o vejo: do chão não se passa.

Aceito a gravidade quando posso, quando consigo, saco os pregadores de meus músculos e novamente sinto: tenho ossos. Sinto a espinha a me alongar e os meus pés no chão. Conforme mais ainda suavizo minha bacia, me renovo nos eixos, sinto desaguar: há água, ainda! Estou viva. E há prazer no mundo.

Sutileza: essa língua os abutres não falam, e digo mais: tem medo! Eles temem os olhos tranquilos. Olhe pra eles assim e verá abutres confusos. Eles não dançam. Observam de braços cruzados.

A estupidez desses homens não os permite apreciar a estranheza sensual do mundo, veja você, eles não podem ver além das imagens imediatas, superfícies; esses homens não possuem os meios necessários a cultivar a alegria familiar que há na matéria, o que dizer quanto a invisibilidade do tempo a dançar nos ares? Em seus corpos reina o desoxigênio.

Por isso me deixo cair, e então percebo: não é besteira. Nesse gesto estou a me distanciar dos abutres o quanto posso, habitar outros tempos, falar outra língua. Só assim posso respirar.

Agora o ar me entra e sai pelas narinas, minha língua está mole na boca conforme meus olhos se permitem descomprimir. Não há problema em olhar-demorar. Posso ir aos poucos, sem pressa em desvendar o mundo de uma só vez. Na contramão dos estúpidos, é preciso desacelar o medo. Lembrar das crianças, suas perguntas que apenas esboçamos responder a não parecer ignorantes mas no fundo não sabemos: há mistério.

É preciso dar vazão à raiva, para que ela não me consuma num caminho sem volta. Não há risco em cair, há prazer, um tesão a envolver o mundo em queda livre. Solto os meus nós e respiro: habito o além-pânico. E frente a frente com os abutres, sinto seu hálito, sua fome de dilacerar o que desaprovado por suas mentes julgadoras, mas não me movo. Ocupo meu espaço no mundo, aquele que tenho por direito, esse não vão me tirar. Nua frente a todos que me queiram devorar, que me devorem! Estou a cair e rir na frente dos estúpidos. Eles não saberiam cair, se lhes instigo tropeçam duros, batem a cabeça no poste. São demasiado brutos.

Conforme caio e me deixo, relaxo os desassossegos deles em mim, não é justo eles em mim: então os solto. Enquanto isso eles apertam os botões dos controles: da televisão, das garagens, dos carros. Querem controlar a vida. Apertam os botões com raiva, não aceitam, uns garotos mimados: apertam e torcem o bico. Mas não eu. Aceito as coisas como são.

Conforme se inflamam seus nervos, conforme apenas inspiram sempre sem nunca soltar, há quem expire . Há quem protagonize o próprio corpo.

O estado de queda é força, quando consigo, e já digo logo: não é sempre. São momentos-instantes de conexão, e preciosos. É quando se permite suavizar, na contramão do mundo. Não é fácil.

Mas quando posso, quando sou permitida pelas coragens, eu rio na cara dos estúpidos. Eles não mudam: apodrecem em seus trambiques. Esbravejam em seus palanques e as promessas de sempre. Mas há quem não nasceu ontem: não me enganam.

Por fim peço perdão aos verdadeiros abutres, aqueles que habitam os céus, por fazer uso de vossos nomes a ilustrar estúpidos. Sei que são mais que isso: muito mais que homens estúpidos, plainam tranquilos nos ares e fazem o que devem: conforme sua própria natureza. É que as imagens me chamam, e eu não passo de uma oportunista, conforme a minha própria natureza: transmuto imagens em palavras falhas.

Respiro: ocupo meu lugar no mundo. Em meio a homens estúpidos? É verdade, mas já não os quero chamar de abutres, não merecem. São bandeirantes, assassinos com seus facões… que a tudo destroem por onde passam, toda a vida. Mas mal sabem, mal sabem eles que em tempos de queda do céu, são eles mesmos, e ninguém mais: a maquinar a própria morte. Não sabem cair, os brutos. Tem os seus dias contados, mas não nós: respiramos. Ou ao menos tentamos, não é assim? E a vida segue.

*texto de agosto de 2019*

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